19 de mai. de 2014

a nebulosa história do surpreendente invento do dr. Angelus - que Deus o tenha!

Já faz um bom tempo desde o acontecido, mas posso me lembrar com bastante clareza da peculiaridade daquele dia. Até hoje correm boatos sobre o incidente na casa do Dr. Angelus - que Deus o tenha!, mas nenhum se aproxima do que aconteceu de verdade naquela tarde...

Eu, bom, eu sei o que aconteceu. Eu estava lá. Eu vi tudo...

Como um mordomo exemplar que sou, cheguei ao serviço a tempo de preparar e servir as torradas crocantes com mel que o Dr. Angelus - que Deus o tenha! - tanto estimava em seu desjejum antes de seguir para o laboratório. Naquela manhã em especial ele negou o café, disse estar sem fome e comentou qualquer coisa ininteligível sobre uma grande descoberta que poderia mudar o rumo da humanidade antes de sair pela porta da cozinha às pressas. Não me entendam mal, mas o Dr. Angelus - que Deus o tenha! - era um senhor um tanto quanto rechonchudo e, vê-lo negando comida, ainda mais suas tão preciosas torradas crocantes com mel, só poderia ser um tipo de mau presságio.

Claro que fiquei intrigado com tamanha estranheza, mas sou um mordomo exemplar e não me deixei perturbar, afinal, suponho que todo mundo tenha o direito de acordar ansioso quando faz uma possível descoberta que pode mudar o rumo da humanidade. Repetindo isso até me convencer continuei meu serviço até o almoço, quando pus a mesa sem nem especular o tamanho do problema que me esperava.

Tão apressado quanto saiu, o Dr. Angelus - que Deus o tenha! -, entrou em casa para o almoço. Pontualidade sempre foi sua característica mais notável, mas naquele dia em especial, como tinha que ser, ele apareceu três horas atrasado. E, se não bastassem dois maus presságios, ao chegar o Dr. não estava exatamente... Apresentável... Tinha roupas chamuscadas, cabelos desgrenhados e andava como se não tivesse percebido que lhe faltava um dos pés do sapato.

Fiquei curioso, claro, mas como bom mordomo que sou, não questionei sua falta de decoro, tampouco o volume coberto com uma toalha suja que ele carregava debaixo do braço, assim como não fiz perguntas quando ele soturnamente mandou que eu guardasse o almoço e logo em seguida subisse para seu escritório.

Se o dia já indicava excentricidade, naquele momento ele se personificou estapafúrdio.

Cedi aos encantos da minha curiosidade e, oh, maldita curiosidade humana!, tirei o almoço às pressas e subi para o escritório. O Dr. Angelus - que Deus o tenha! - sempre foi muito atencioso comigo e, não que eu goste de me gabar disso depois daquela tarde, mas sempre confiou bastante em mim. Creio que devido a isso ele me chamou por meu primeiro nome quando bati na porta. Sua voz embargada pediu que eu entrasse, sentasse e respirasse fundo treze vezes, pois estaria prestes a ter minha vida transformada pela maior e mais nova descoberta do século.

E devia mesmo ser a maior descoberta do século... Talvez a maior desde a descoberta do fogo! Uma pena que não pudemos apreciá-la por tempo suficiente... Não que eu goste de ficar revivendo os minutos pavorosos que passei após adentrar o escritório naquela tarde macabra e sinistra, mas não hei de ficar muito tempo nesse mundo e o papel sempre foi o melhor relicário para quem precisa contar uma história.

Assim que me sentei e respirei fundo treze vezes como o Dr. Angelus - que Deus o tenha! - ordenou, ele segurou meus braços sob os da cadeira, olhou intensamente dentro dos meus olhos e disse com a voz sufocada pela expectativa: "Lhe apresento agora...". Foi nesse momento que o tempo congelou, como deve acontecer em toda história com descobertas que podem mudar o rumo da humanidade.

No mesmo instante em que ele retirou a toalha de cima do embrulho que trouxera, o som de engrenagens começou. Apesar de não haver nenhum mecanismo visível o barulho era ensurdecedor! E o invento brilhava tanto e era tão bem trabalhado que, naquela fração de segundo, só pude pensar no quão genial e talentoso era o Dr. Angelus - que Deus o tenha!

Tão instantâneo e inexplicável quanto o barulho das engrenagens foi o momento em que o Dr se juntou aos outros grandes nomes do século. Assim que se aproximou do invento para completar a frase, seus olhos foram tomados por um brilho insano e ele saltou ao encontro de sua obra magnífica. As engrenagens cessaram e nunca mais o vi ou ouvi falar dele. Nada de sangue, de pista, de barulho ou explicação...

Já faz uns bons anos que espero aqui nessa sala, afinal, bom mordomo que sou, não me retiro sem que seja ordenado pelo patrão, mas uma coisa eu lhes afirmo: nada do que contam por ai na cidade se equipara ao que vivi naquela tarde. Nada chega aos pés do que aconteceu! E eu sei disso porque, bom, eu estou aqui...

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