22 de mai. de 2014

rodoviária

Em algum lugar, alguém abre um livro.

Você não sabe disso. Você sabe pouco. Na verdade, você sabe quase nada.
Sabe que está ali, numa rodoviária, esperando seu ônibus.
Sabe que a ânsia de viajar o levou até ali. Trinta minutos mais cedo do que deveria.
Também sabe ler. Puxa um livro da mochila pesada que leva consigo, o abre. Mas não lê.
O livro fica ali, em suas mãos. As bordas das páginas começam a molhar com seu suor.
Você desiste de ler. Joga o livro, ainda aberto, na mochila.

Aos poucos, árvores e morros vão correndo pela janela do ônibus.
No começo, devagar. Agora, mais rápidos do que seus olhos podem acompanhar.
Você se cansa de tentar distinguir formas em meio a tanto verde.
Decide se deixar levar por pensamentos. Pelo céu.

O céu é azul. Algumas nuvens esparsas. Ovelhas em um pasto mal colorido. Faltou o amarelo.
O céu não se move. Não como as árvores. Está sempre ali. Olhando. Vigiando.
Há uma estrela. Pequena. Quase sumindo.

Você se dá conta de quão pequeno é. "Menor que aquela estrela", pensa.
Um arrepio lhe atinge. Frio. Rápido. Como o medo em uma criança.
Continua a se maravilhar. A se amedrontar com sua pequenez.
A se orgulhar de sua infinidade.

Pensamentos como estes são perturbantes. É melhor ler.
Pacientemente, enquanto ouve alguém roncar a seu lado, tira o livro da mochila.
Ainda está aberto na mesma página úmida em que o deixou.
O primeiro capítulo do livro. "Essa é uma história sobre você."
A primeira frase do livro. "Depois de um ano sem sair da rotina, você decide viajar."
Um arrepio lhe atinge.

Talvez borrões verdes correndo pela janela não sejam tão ruins.
Você vai fechando o livro. Sua visão escurece.
Seus dedos, segurando as bordas do livro, se tocam.
O mundo à sua volta enegrece.
As bordas finalmente se encostam. No mesmo instante, sua cabeça se recosta.
O livro se fecha.
Vazio.

Em algum lugar, um livro se fecha.

19 de mai. de 2014

a nebulosa história do surpreendente invento do dr. Angelus - que Deus o tenha!

Já faz um bom tempo desde o acontecido, mas posso me lembrar com bastante clareza da peculiaridade daquele dia. Até hoje correm boatos sobre o incidente na casa do Dr. Angelus - que Deus o tenha!, mas nenhum se aproxima do que aconteceu de verdade naquela tarde...

Eu, bom, eu sei o que aconteceu. Eu estava lá. Eu vi tudo...

Como um mordomo exemplar que sou, cheguei ao serviço a tempo de preparar e servir as torradas crocantes com mel que o Dr. Angelus - que Deus o tenha! - tanto estimava em seu desjejum antes de seguir para o laboratório. Naquela manhã em especial ele negou o café, disse estar sem fome e comentou qualquer coisa ininteligível sobre uma grande descoberta que poderia mudar o rumo da humanidade antes de sair pela porta da cozinha às pressas. Não me entendam mal, mas o Dr. Angelus - que Deus o tenha! - era um senhor um tanto quanto rechonchudo e, vê-lo negando comida, ainda mais suas tão preciosas torradas crocantes com mel, só poderia ser um tipo de mau presságio.

Claro que fiquei intrigado com tamanha estranheza, mas sou um mordomo exemplar e não me deixei perturbar, afinal, suponho que todo mundo tenha o direito de acordar ansioso quando faz uma possível descoberta que pode mudar o rumo da humanidade. Repetindo isso até me convencer continuei meu serviço até o almoço, quando pus a mesa sem nem especular o tamanho do problema que me esperava.

Tão apressado quanto saiu, o Dr. Angelus - que Deus o tenha! -, entrou em casa para o almoço. Pontualidade sempre foi sua característica mais notável, mas naquele dia em especial, como tinha que ser, ele apareceu três horas atrasado. E, se não bastassem dois maus presságios, ao chegar o Dr. não estava exatamente... Apresentável... Tinha roupas chamuscadas, cabelos desgrenhados e andava como se não tivesse percebido que lhe faltava um dos pés do sapato.

Fiquei curioso, claro, mas como bom mordomo que sou, não questionei sua falta de decoro, tampouco o volume coberto com uma toalha suja que ele carregava debaixo do braço, assim como não fiz perguntas quando ele soturnamente mandou que eu guardasse o almoço e logo em seguida subisse para seu escritório.

Se o dia já indicava excentricidade, naquele momento ele se personificou estapafúrdio.

Cedi aos encantos da minha curiosidade e, oh, maldita curiosidade humana!, tirei o almoço às pressas e subi para o escritório. O Dr. Angelus - que Deus o tenha! - sempre foi muito atencioso comigo e, não que eu goste de me gabar disso depois daquela tarde, mas sempre confiou bastante em mim. Creio que devido a isso ele me chamou por meu primeiro nome quando bati na porta. Sua voz embargada pediu que eu entrasse, sentasse e respirasse fundo treze vezes, pois estaria prestes a ter minha vida transformada pela maior e mais nova descoberta do século.

E devia mesmo ser a maior descoberta do século... Talvez a maior desde a descoberta do fogo! Uma pena que não pudemos apreciá-la por tempo suficiente... Não que eu goste de ficar revivendo os minutos pavorosos que passei após adentrar o escritório naquela tarde macabra e sinistra, mas não hei de ficar muito tempo nesse mundo e o papel sempre foi o melhor relicário para quem precisa contar uma história.

Assim que me sentei e respirei fundo treze vezes como o Dr. Angelus - que Deus o tenha! - ordenou, ele segurou meus braços sob os da cadeira, olhou intensamente dentro dos meus olhos e disse com a voz sufocada pela expectativa: "Lhe apresento agora...". Foi nesse momento que o tempo congelou, como deve acontecer em toda história com descobertas que podem mudar o rumo da humanidade.

No mesmo instante em que ele retirou a toalha de cima do embrulho que trouxera, o som de engrenagens começou. Apesar de não haver nenhum mecanismo visível o barulho era ensurdecedor! E o invento brilhava tanto e era tão bem trabalhado que, naquela fração de segundo, só pude pensar no quão genial e talentoso era o Dr. Angelus - que Deus o tenha!

Tão instantâneo e inexplicável quanto o barulho das engrenagens foi o momento em que o Dr se juntou aos outros grandes nomes do século. Assim que se aproximou do invento para completar a frase, seus olhos foram tomados por um brilho insano e ele saltou ao encontro de sua obra magnífica. As engrenagens cessaram e nunca mais o vi ou ouvi falar dele. Nada de sangue, de pista, de barulho ou explicação...

Já faz uns bons anos que espero aqui nessa sala, afinal, bom mordomo que sou, não me retiro sem que seja ordenado pelo patrão, mas uma coisa eu lhes afirmo: nada do que contam por ai na cidade se equipara ao que vivi naquela tarde. Nada chega aos pés do que aconteceu! E eu sei disso porque, bom, eu estou aqui...

15 de mai. de 2014

hipsters

Tenho certeza que todo mundo tem algum amigo hipster. Ah, caso você não saiba o que é um hipster, continue lendo as próximas linhas. Caso você saiba o que é um hipster, também leia as próximas linhas porque deu um trabalho danado encontrar uma definição para esse grupo tão amado da sociedade.

Dicionário Lucas de Português, 2014.
hipster. s.m. Palavra pertencente à língua inglesa que se refere comumente a uma pessoa que possui determinados atributos, dos quais invariavelmente tal pessoa se orgulha. Destaca-se entre os atributos: 1. vestir camisetas irônicas ou xadrez; 2. usar óculos mesmo quando não possui nenhum problema de visão; 3. no caso de hipsters homens é imprescindível o uso de barba malfeita ou apenas um bigode ridículo; 4. apropriar-se de elementos não atuais de outros determinados nichos culturais; 5. ouvir bandas das quais ninguém nunca ouviu falar; 6. ter como bicicleta o principal meio de transporte; 7. odiar tudo que seja mainstream.
Bom, tendo o conceito de hipster esclarecido, posso apostar um pirulito que todos têm um amigo (ou mais) que se encaixa em tal definição. (Caso você não tenha um amigo hipster, atente-se a seus hábitos e gostos, você pode ser um deles).

Mas vamos direto ao assunto porque o objetivo desse texto não é definir hipster, muito menos servir como quiz do BuzzFeed para descobrir se você é ou não um autentico representante dessa categoria (para aqueles que querem o quiz, aqui está: http://www.buzzfeed.com/katienotopoulos/are-you-a-hipster). O motivo pelo qual estou escrevendo é simples: ensinar como se ganha uma guerra de bandas obscuras com qualquer amigo hipster. Pode parecer algo inútil, mas nunca se sabe quando aquela pessoa – vestindo camisa xadrez, bermudas skinny e tênis Vans, ouvindo um toca-fitas e bebendo café – vai se aproximar e querer puxar papo.

Se você já conversou com qualquer hipster provavelmente sabe que seu repertório de tópicos para uma conversa ocasional abrange três áreas do conhecimento: qual o melhor método de se fazer a própria cerveja, qual bicicleta tem melhor desempenho no trajeto até a cafeteria mais próxima, e qual a banda independente mais desconhecida você é capaz de citar. Até ontem eu não estava nem um pouco ciente da existência de tais assuntos, mas, esperando pela aula de francês, fui obrigado a me socializar com uma moça hipster – leia-se, ela começou a falar.

Depois de me contar – espontaneamente – que estava indo para a aula de holandês, e discorrer brevemente sobre a necessidade de se aprender uma língua que não o inglês, a moça começou a me fazer perguntas. As perguntas eram estranhamente aleatórias e suspeito que só serviam para encontrar um assunto que tivéssemos em comum. Ela começou com: “Você bebe?”, respondi que não. Depois ela pulou para: “Não tem muitas cafeterias por aqui, né?!”, respondi com um vago “É”. Até que ela chegou aonde queria. Perguntou: “E aí, tem ouvido alguma banda nova?” A princípio estranhei, afinal nem conhecia a moça, mas decidi responder da forma mais educada possível: “É, achei uma banda legal no YouTube hoje. Chama-se Branches”.

Caí na armadilha.

A moça, de alguma maneira, conhecia a banda. Fiquei surpreso por alguém na minha cidade também gostar de uma banda que tem pouco mais de 5 mil inscritos no YouTube. De qualquer forma, decidi deixar a conversa morrer por ali mesmo, mas a moça insistia em conversar, e agora parecia que tinha um assunto sobre o qual falar. Ela me perguntava a cada segundo se eu conhecia determinados cantores, e cada “não” que eu proferia parecia aumentar o seu orgulho. Então fiquei ali, a ouvindo falar sobre milhares de bandas independentes, com nomes irônicos e pouco conhecidas. Depois de uns dez minutos de monólogo, cheguei à conclusão que fui a coisa mais legal que aconteceu no dia da moça, a julgar pelo modo empolgado que ela falava sobre coisas que eu não conhecia.

Depois de ser salvo de uma torrente de informações sobre todos os tipos de bandas e grupos musicais pelo professor de holandês da garota, fiquei pensando em como poderia evitar tal tipo de conversa caso encontrasse outro hipster disposto a falar. Perdi metade da aula de francês por ficar avaliando o que motiva certo tipo de pessoa a querer citar tão freneticamente inúmeros nomes sobre os quais o interlocutor não está nem interessado. Cheguei a única conclusão: é uma espécie de competição, na qual quem conhece a banda mais obscura/desconhecida vence.

Por mais estranha e inútil que pareça tal competição, decidi me preparar para a próxima, caso involuntariamente eu me envolva em uma. Acho que nunca vou ser capaz de citar tantos nomes como a mocinha fez, muito menos de conhecer tantas bandas diferentes. Mas aposto que sou capaz de inventar uma banda da qual ninguém possui menor conhecimento sobre.


Então, decidi que quando perguntado sobre o tipo de música que ouço vou sempre dizer que gosto de 'Green Bay Vessel'. E, após apreciar a expressão frustrada do hipster, vou complementar com um: “O quê? Você não conhece? Pff... é uma banda de indie folk, do nordeste de Oregon. Deveria procurar sobre ela quando chegar em casa.”

5 de mai. de 2014

literalmente

Segundo o Dicionário amarelo (e fedorento) da mamãe:

“advérbio derivado do adjetivo literal: ao pé da letra; rigorosamente como foi mencionado; exatamente como o descrito – em todos os sentidos.”

Tenho visto tanta gente usando o advérbio que às vezes me pergunto se sabem o que significa. Ontem mesmo ouvi uma mulher dizer que estava – literalmente – pegando fogo na festa. Apesar de eu não ter visto nenhuma queimadura nem nada do tipo, presumi que a socorreram a tempo.

Outro dia, no Twitter, vi uma atriz de Hollywood dizer que tinha – literalmente – morrido, após assistir à apresentação da Beyoncé. Claro, supus que estava lendo um daqueles tweets agendados, afinal, mortos não digitam.

Hoje, na aula, minha amiga disse que lavou tanto o cabelo que ficou – literalmente – careca. Fiquei impressionado com a qualidade da peruca que ela estava usando, e não pude deixar de notar que era exatamente igual ao seu cabelo natural.

Com tanto literalmente sendo usado por aí, não se espante se qualquer dia desses ouvir que alguém foi – literalmente – assassinado pelo português.